A Canção do Amanhecer

A primeira fascinação pela arte ocorreu por meio da música. Era criança e as músicas que ouvia pelo rádio - enquanto embalado na rede por Nilda, a babá – despertavam, além de uma agradável sensação, um grande mistério: de onde vinham? Quem as criava? Como podiam ser tão diferentes umas das outras?
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Imaginação de criança, começou a acreditar que as músicas existiam desde sempre e que, sob o formato de névoas, estavam guardadas dentro de estojos transparentes, no interior de um quarto mágico situado no sopé da montanha mais alta do mundo. Pensou também que, de tempos em tempos, era dado a uns poucos Gigantes – por algum mérito que desconhecia - o direito de levar alguns daqueles estojos até o topo daquela montanha mais alta do mundo, onde, em silêncio, ficavam esperando a chegada dos ventos que vinham do norte.

Quando os ventos do norte chegavam, os Gigantes abriam os estojos transparentes e libertavam as músicas/névoas para o mundo. Conduzidas pelos ventos, as músicas invadiam os céus e chegavam até os rádios das casas onde, de novo e de alguma forma, eram aprisionadas. Mas os adultos – como Nilda, a babá, que não era uma Gigante - sabiam como soltá-las. Bastava girar um botão.
Dessa forma, as músicas/névoas saiam de dentro dos rádios e chegavam aos ouvidos de todos, particularmente àqueles ouvidos infantis do menino, apto, por natureza, a mitificar uma realidade que não compreendia.
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Um dia o menino, crescido a ponto de caminhar com as próprias pernas, maravilhou-se ao ganhar um brinquedo que, aos seus olhos, parecia especial: uma pequena guitarra de plástico.
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De alguma forma, sabia que aquele brinquedo novo era uma espécie de chave para o quarto mágico e seus estojos transparentes repletos de músicas/névoas. Mas como utilizar aquela chave? Como fazer para chegar até a porta do quarto mágico, no sopé da montanha mais alta do mundo?
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Infelizmente, não dispôs de muito tempo para tentar solucionar os novos e fundamentais problemas. O irmão caçula, num rompante inocente e destrutivo, quebrou a guitarra. Naquele dia, estranhamente, descobriu que também se pode perder o futuro.
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De toda a experiência, além da lembrança, restou uma imagem.
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Nela se pode ver um menino orgulhoso por reter, entre os braços miúdos, aquilo que supunha ser a chave de um grande mistério, o mistério das músicas que, acredito, encontram-se guardadas - sob múltiplas formas de névoas acondicionadas em milhares de estojos transparentes - no interior de um quarto mágico situado no sopé da montanha mais alta do mundo.

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