
Sobre Cinemas e Artes Marciais
Nasci e fui criado - até os seis anos de idade - numa pequena casa que ficava em frente ao Jockey Club, no bairro do Pici. Lembro que, distante uns três quarteirões da minha moradia, existia, para os meus olhos assombrados de criança, um gigantesco prédio de esquina. Sempre que passava por lá, geralmente à noite e na companhia dos meus pais, via uma multidão parada em frente aos grandes portões de madeira escura que se destacavam na fachada retangular do prédio. Eu não entendia o porquê de tanta gente reunida em frente aquele pórtico. Até que, um dia, alguém (não lembro se meu pai ou minha mãe) disse tratar-se de um cinema. O mistério ampliou-se: o que era um cinema?
Anos depois tive a oportunidade de retornar ao lugar e vi que, ao invés do tal cinema, o prédio abrigava um supermercado. Na última vez que por lá passei, o edifício se encontrava abandonado.
Minha mãe é natural do município de Quixeramobim, mais precisamente de um lugar chamado Teodósio, que fica quase na fronteira com o vizinho município de Senador Pompeu, onde morava uma irmã dela, a Tia Dedeza. Era para lá, para a casa da Tia Dedeza, que eu costumava ir durante as férias escolares do mês de Julho. A atividade preferida da meninada, inclusive dos meus primos César e Cacá - que eram mais "velhos” do que eu - era ir ao cinema local, onde só eram exibidos filmes de artes marciais.
Depois da exibição, já devidamente transformados em garotos-guerreiros, saiam todos a reproduzir, tacanhamente, os saltos e golpes que viam nas telas. Eram “Kiais” para todos os lados e gostos. A prática de alguma luta marcial era uma verdadeira epidemia, não só em Senador Pompeu, mas na Fortaleza dos anos setenta. Eu mesmo - a despeito da minha índole pacata - cheguei a freqüentar uma academia de caratê. Nunca passei de um esforçado "faixa branca".
Todo essa febre era insuflada pelo cinema que, com os filmes inverossímeis de Bruce Lee e companhia, nos fazia crer na superação de nossos limites através daquela arte de luta milenar.
Meu primo César não existe mais. Culpa do coração, que era jovem, mas fraco, tal qual Cacá, que hoje vaga, alcoolizado e envelhecido, por alguma rua vazia de Senador Pompeu. Foi vencido. Ou deixou-se vencer, não sei... Também não sei se ainda existem cinemas em Senador Pompeu. Creio que devem ter tido o mesmo fim que teve o misterioso cinema de minha infância, lá no Pici. Também creio que exista - quem sabe nas dependências de um antigo cinema abandonado - uma academia de artes marciais naquela cidade. Se assim for, é muito provável que, à frente dessa academia, esteja um daqueles garotos-guerreiros que sabiam, já naquela época, que a luta nunca finda. Nem mesmo quando findam os filmes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário