
Crônica de um Cinema Anunciado*
15 de outubro de 1924, uma quarta-feira, 19 horas. O Cinema Moderno, com sua fachada ladeada por duas torres ricamente ornadas e unidas por uma marquise de vidros multicoloridos, lembra, como disse alguém, um palácio bizantino. O público, vindo dos arredores da Praça do Ferreira, começa a chegar. É, em sua maioria, jovem. No hall, as moças - vaidosas e elegantemente vestidas – ajeitam, de passagem, os chapéus diante dos espelhos bisotados que revestem parte do ambiente. Os rapazes, por sua vez, animados pela proximidade feminina, aninham-se nos confortáveis sofás de couro negro e, entre um flirt e outro, admiram as talhas de madeira envernizada que revestem o enorme pé-direito do prédio.
A sala de exibição, com 709 lugares, vai sendo lentamente ocupada. Desgarrando-se da fila que se acumula no corredor, alguns casais ziguezagueiam em meio às cadeiras dobradas. Buscam o fundo da sala, onde um pequeno balcão, servindo de divisória, irá protegê-los contra olhares indiscretos. O barulho e o calor aumentam. Ventiladores são acionados e dezenas de portinholas laterais - em dois níveis superpostas – são abertas. Resta torcer para que não caia uma chuva repentina.
Adhemar Albuquerque, 32 anos, está na cabine de projeção. Após fazer, juntamente com o velho Antonio - projecionista de longa data - os últimos ajustes no maquinário, ele desce para recepcionar os convidados. Está nervoso. Não bastasse ser aquela a estréia do seu primeiro filme, há ainda a pressão de ser o primeiro feito por um cearense. Duplo encargo. Afora esses fatores, um outro o preocupa: a temática do filme. Futebol. Qual será a reação do público, já que esse esporte não é tão popular? Irá gostar das cenas filmadas no campo do Alagadiço? Achará a fotografia boa, a luz adequada, os planos bonitos? Reconhecerá seu esforço em procurar fazer cinema no Ceará? E o mais importante: terá ele, Adhemar, possibilidades de filmar novamente, já que essa é uma terra historicamente pobre em meios e recursos?
As luzes são apagadas. O calor – agora acompanhado por um silêncio quase completo – permanece intenso. Na tela, um time do Maranhão desembarca em terras cearenses. Imagens das arquibancadas e da movimentação dos torcedores junto ao campo. Na penumbra da sala, Adhemar, recostado a uma parede, não assiste ao filme. Já o conhece em demasia. Olha o público, cuja atenção ao que se passa na tela é absoluta.
Começa o jogo. A partida é disputada com avidez. O público ri quando um distraído vendedor de algodão doce é atingido por uma bolada. Um jogador cearense sofre falta na entrada da área adversária. Após a cobrança, a bola explode contra o travessão. Cenas de decepção na tela e na platéia. Nova seqüência de lances. Após rápida troca de passes, a linha de frente maranhense vê-se diante do arqueiro alencarino: gol! Dessa vez é a platéia que explode num misto de injúrias e lamentos.
Começa o jogo. A partida é disputada com avidez. O público ri quando um distraído vendedor de algodão doce é atingido por uma bolada. Um jogador cearense sofre falta na entrada da área adversária. Após a cobrança, a bola explode contra o travessão. Cenas de decepção na tela e na platéia. Nova seqüência de lances. Após rápida troca de passes, a linha de frente maranhense vê-se diante do arqueiro alencarino: gol! Dessa vez é a platéia que explode num misto de injúrias e lamentos.
Adhemar abre um leve sorriso. O público ali presente ainda não sabe: o jogo continuará duro e disputado, mas, ao final, o Ceará sairá vencedor.
* Dedicada a Adhemar Albuquerque, Ary Leite, Marciano Lopes, Fernando Câncio, José Maia Pereira (Mainha) e a Gabriel Garcia Marquez.
2 comentários:
Pensava que o primeiro filme cearense tinha sido aquele documentário sobre rede, na década de 60. Boa informação!
Paulo, o filme a que você se refere é o "Rede de Dormir", do João Maria Siqueira, feito, de fato, nos anos 60.
O filme de que trata a crônica que escrevi chamava-se "Temporada Maranhense de Futebol no Ceará", do Adhemar Albuquerque, fundador da ABA FILM.
Foi Adhemar quem produziu, em 1936, o célebre filme que o Benjamin Abrãao fez sobre Lampião.
Abraço.
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