Entrevista Concedida por Duarte Dias ao Jornalista Dalwton Moura, do Diário do Nordeste.*
Tema: Os 20 anos do Cine Ceará - Festival Ibero-Americano de Cinema.
Data da Entrevista: 16 de Junho de 2010.


O Cine Ceará está completando 20 anos. Que importância o festival teve para você, como espectador e, posteriormente, realizador?

Na condição de espectador residente em Fortaleza, o Cine Ceará possibilitou, dentro de um determinado período histórico – hoje suplantado pela tecnologia digital e pelas novas mídias, como a Internet - o acesso a uma filmografia distinta da que habitualmente ocupa o circuito de salas comerciais, que costumam funcionar, na maioria das vezes, como embaixadas culturais estrangeiras incrustadas nos shoppings centers das grandes cidades brasileiras.

Já na qualidade de diretor cearense, vejo a importância do Cine Ceará residindo, principalmente, no fortalecimento estratégico de uma cadeia alternativa e diversificada de exibição que vise cobrir todas as macrorregiões do Estado, cadeia essa que, em termos de festivais – porque existem outros agentes, como os cineclubes - conta com eventos como o Curta Canoa, o For Rainbow, o FestCine Maracanaú, o Nóia e o Festival de Jericoacoara.

Ao longo da década de 90 o festival foi um dos principais elementos do propalado polo de cinema defendido pelo Governo do Estado para o Ceará. Nos 20 anos do festival, pode-se dizer que essa promessa se cumpriu?

Os números, hoje, caracterizam o Ceará como um dos maiores pólos produtores de conteúdo audiovisual independente do Brasil. A produção até agora contabilizada para o biênio 2009/2010 – segundo números da Associação Cearense de Cinema e Vídeo - ACCV/ABD-CE - conta com 95 curtas metragens, 6 médias e 14 longas. E mais filmes serão feitos em breve, já que a Secretaria da Cultura do Estado lançou, após interlocução com o Fórum Cearense do Audiovisual, o 8º Prêmio Ceará de Cinema e Vídeo, que prevê a feitura, salvo engano, de mais trinta e oito produções.

No entanto, se por um lado existe essa “explosão produtiva” desencadeada, também e em grande parte, pela democratização do acesso que a tecnologia digital proporciona, por outro percebe-se a enorme carência de ações estruturantes em diversos elos da cadeia produtiva do audiovisual cearense. Como não convém esmiuçar em poucas palavras um assunto tão complexo, resumiria dizendo que grande parte do que vivenciamos hoje não teria sido possível sem a ação fundamental e complementar de entidades como o Instituto Dragão do Mar, a Casa Amarela Eusélio Oliveira, a Associação Cearense de Cinema e Vídeo – ACCV/ABD-CE, a Vila das Artes, o Fórum Cearense de Audiovisual, a UNIFOR, a UFC e todos os Festivais, Cineclubes, Sindicatos, Ong’s, Associações e inúmeros Pontos de Cultura Audiovisual espalhados pela capital e pelo interior do Ceará. Além, é claro, da participação decisiva do poder público constituído.

Qual o olhar dos realizadores mais recentes sobre o festival? Ele, de fato, cumpre um papel de incentivo aos novos cineastas locais?

Acredito que o incentivo maior, aquele que move e instiga o ato de criação no artista, vem do seu íntimo, da necessidade intrínseca de se expressar por intermédio da sua arte. Feita a pontuação, sabemos que o circuito brasileiro de festivais, hoje, conta com aproximadamente 200 eventos. No meu entendimento, o Cine Ceará, como um dos representantes mais experimentados dessa importante cadeia de exibição alternativa – que, além da expressividade numérica, comporta diversas matrizes estéticas, culturais, políticas e mercadológicas – consegue contribuir, mesmo na condição de um festival internacional, para a visibilidade da produção audiovisual independente e brasileira.

Que ponto positivo você destaca no festival e que modificações você faria no evento?

Os destaques valem não só para o Cine Ceará, mas para todos os festivais que compõem o circuito brasileiro: a visibilidade, a democratização do acesso e o contato cultural que esse tipo de evento proporciona tanto para o público, quanto para os realizadores independentes.

Da mesma forma, uma das sugestões de alteração estende-se não só ao Cine Ceará, mas a uma parcela dos festivais brasileiros: que os mesmos vejam a possibilidade de incluir, em seus custos orçamentários, prêmios em dinheiro para os vencedores de todas as categorias contempladas em seus respectivos eventos.

* http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=802502
Data da Publicação: 20 de Junho de 2010.

2 comentários:

Nirton Venancio disse...

Respostas firmes, lúcidas.

Duarte Dias disse...

Grato, Nirton.