Pátria Minha*
Vinicius de Moraes

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."


*Texto extraído do livro "Vinicius de Moraes - Poesia Completa e Prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 383.
Entrevista Concedida por Duarte Dias ao Jornalista Dalwton Moura, do Diário do Nordeste.*
Tema: Os 20 anos do Cine Ceará - Festival Ibero-Americano de Cinema.
Data da Entrevista: 16 de Junho de 2010.


O Cine Ceará está completando 20 anos. Que importância o festival teve para você, como espectador e, posteriormente, realizador?

Na condição de espectador residente em Fortaleza, o Cine Ceará possibilitou, dentro de um determinado período histórico – hoje suplantado pela tecnologia digital e pelas novas mídias, como a Internet - o acesso a uma filmografia distinta da que habitualmente ocupa o circuito de salas comerciais, que costumam funcionar, na maioria das vezes, como embaixadas culturais estrangeiras incrustadas nos shoppings centers das grandes cidades brasileiras.

Já na qualidade de diretor cearense, vejo a importância do Cine Ceará residindo, principalmente, no fortalecimento estratégico de uma cadeia alternativa e diversificada de exibição que vise cobrir todas as macrorregiões do Estado, cadeia essa que, em termos de festivais – porque existem outros agentes, como os cineclubes - conta com eventos como o Curta Canoa, o For Rainbow, o FestCine Maracanaú, o Nóia e o Festival de Jericoacoara.

Ao longo da década de 90 o festival foi um dos principais elementos do propalado polo de cinema defendido pelo Governo do Estado para o Ceará. Nos 20 anos do festival, pode-se dizer que essa promessa se cumpriu?

Os números, hoje, caracterizam o Ceará como um dos maiores pólos produtores de conteúdo audiovisual independente do Brasil. A produção até agora contabilizada para o biênio 2009/2010 – segundo números da Associação Cearense de Cinema e Vídeo - ACCV/ABD-CE - conta com 95 curtas metragens, 6 médias e 14 longas. E mais filmes serão feitos em breve, já que a Secretaria da Cultura do Estado lançou, após interlocução com o Fórum Cearense do Audiovisual, o 8º Prêmio Ceará de Cinema e Vídeo, que prevê a feitura, salvo engano, de mais trinta e oito produções.

No entanto, se por um lado existe essa “explosão produtiva” desencadeada, também e em grande parte, pela democratização do acesso que a tecnologia digital proporciona, por outro percebe-se a enorme carência de ações estruturantes em diversos elos da cadeia produtiva do audiovisual cearense. Como não convém esmiuçar em poucas palavras um assunto tão complexo, resumiria dizendo que grande parte do que vivenciamos hoje não teria sido possível sem a ação fundamental e complementar de entidades como o Instituto Dragão do Mar, a Casa Amarela Eusélio Oliveira, a Associação Cearense de Cinema e Vídeo – ACCV/ABD-CE, a Vila das Artes, o Fórum Cearense de Audiovisual, a UNIFOR, a UFC e todos os Festivais, Cineclubes, Sindicatos, Ong’s, Associações e inúmeros Pontos de Cultura Audiovisual espalhados pela capital e pelo interior do Ceará. Além, é claro, da participação decisiva do poder público constituído.

Qual o olhar dos realizadores mais recentes sobre o festival? Ele, de fato, cumpre um papel de incentivo aos novos cineastas locais?

Acredito que o incentivo maior, aquele que move e instiga o ato de criação no artista, vem do seu íntimo, da necessidade intrínseca de se expressar por intermédio da sua arte. Feita a pontuação, sabemos que o circuito brasileiro de festivais, hoje, conta com aproximadamente 200 eventos. No meu entendimento, o Cine Ceará, como um dos representantes mais experimentados dessa importante cadeia de exibição alternativa – que, além da expressividade numérica, comporta diversas matrizes estéticas, culturais, políticas e mercadológicas – consegue contribuir, mesmo na condição de um festival internacional, para a visibilidade da produção audiovisual independente e brasileira.

Que ponto positivo você destaca no festival e que modificações você faria no evento?

Os destaques valem não só para o Cine Ceará, mas para todos os festivais que compõem o circuito brasileiro: a visibilidade, a democratização do acesso e o contato cultural que esse tipo de evento proporciona tanto para o público, quanto para os realizadores independentes.

Da mesma forma, uma das sugestões de alteração estende-se não só ao Cine Ceará, mas a uma parcela dos festivais brasileiros: que os mesmos vejam a possibilidade de incluir, em seus custos orçamentários, prêmios em dinheiro para os vencedores de todas as categorias contempladas em seus respectivos eventos.

* http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=802502
Data da Publicação: 20 de Junho de 2010.


Trem de Alagoas*
Ascenso Ferreira


O sino bate,
o condutor apita o apito,
solta o trem de ferro um grito,
põe-se logo a caminhar...

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

Mergulham mocambos
nos mangues molhados ,
moleques mulatos,
vem vê-lo passar.

— Adeus!
— Adeus!

Mangueiras, coqueiros,
cajueiros em flor,
cajueiros com frutos
já bons de chupar...

— Adeus, morena do cabelo cacheado!

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

Na boca da mata
há furnas incríveis
que em coisas terríveis
nos fazem pensar:

— Ali mora o Pai-da-Mata!
— Ali é a casa das caiporas!

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

Meu Deus! Já deixamos
a praia tão longe...
No entanto avistamos
bem perto outro mar...

Danou-se! Se move,
parece uma onda...
Que nada! É um partido
já bom de cortar...

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

Cana-caiana
cana-roxa
cana-fita
cada qual a mais bonita,
todas boas de chupar...

— Adeus, morena do cabelo cacheado!

— Ali dorme o Pai-da-Mata!
— Ali é a casa das caiporas!

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

*Do livro Poemas de Ascenso Ferreira, Nordestal Editora, 1995, Pernambuco. Trem de Alagoas deu origem a Vou Danado Pra Catende, composição de Alceu Valença, que segue abaixo.




Cinema: Instrumento de Poesia*
Luis Buñuel

Nas mãos de um espírito livre, o cinema é uma arma magnífica e perigosa. É o melhor instrumento para exprimir o mundo dos sonhos, das emoções, do instinto. O mecanismo produtor das imagens cinematográficas é, por seu funcionamento intrínseco, aquele que, de todos os meios da expressão humana, mais se assemelha à mente humana, ou melhor, mais se aproxima do funcionamento da mente em estado de sonho. Jacques B. Brunius assinala que a noite paulatina que invade a sala equivale a fechar os olhos. Começa então na tela, e no interior da pessoa, a incursão pela noite do inconsciente; como no sonho, as imagens aparecem e desaparecem mediante fusões e escurecimentos; o tempo e o espaço tornam-se flexíveis, prestando-se a reduções ou distensões voluntárias; a ordem cronológica e os valores relativos da duração deixam de corresponder à realidade; a ação transcorre em ciclos que podem abranger minutos ou séculos; os movimentos se aceleram.

O cinema parece ter sido inventado para expressar a vida subconsciente, tão profundamente presente na poesia; porém, quase nunca é usado com este propósito.

* Trecho do artigo presente no livro "A Experiência do Cinema", organizado por Ismail Xavier, Editora Graal, 4ª Edição.


O Sonho de Bob Dylan*
Bob Dylan


Enquanto andava em um trem indo para o oeste
Eu caí no sono para descansar
Sonhei um sonho que me deixou triste
Tratando de mim e os primeiros poucos amigos que tive

Com olhos úmidos eu encarei o quarto
Onde meus amigos e eu passamos muitas tardes
Onde juntos enfrentamos muitas tempestades
Rindo e cantando até altas horas da manhã

Perto do velho fogão a lenha
Onde nossos chapéus eram pendurados
Nossas palavras eram ditas, nossas canções cantadas
Onde desejávamos nada e éramos satisfeitos
Brincando e conversando sobre o mundo lá fora

Com corações famintos pelo calor e frio
Nunca pensávamos que pudéssemos envelhecer
Pensávamos que poderíamos sentar para sempre em diversão
Mas nossas chances eram na verdade de um milhão contra um

Tão fácil quanto discernir o preto do branco
Era assim tão fácil discernir o certo do errado
E nossas obrigações eram poucas e a idéia nunca bateu
De que a estrada única que viajávamos
Poderia rachar e partir

Quantos anos já se passaram e se foram
E muitas apostas foram perdidas e vencidas
E muitas estradas levaram meus amigos
E cada um eu jamais vi novamente

Eu desejo, eu desejo, eu desejo em vão que pudéssemos
Simplesmente sentar naquele quarto novamente
Dez mil dólares ao cair de um chapéu
Eu daria tudo alegremente
Se nossas vidas pudessem ser daquele modo

* "Bob Dylan's Dream" é uma canção feita por Bob Dylan em 1962.
Ouça: http://www.youtube.com/watch?v=K-uc9poLg0c


Romance
Mário Faustino

Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhando já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena
Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.


Se em Meu Ofício, ou Arte Severa*
Dylan Thomas


Se em meu ofício, ou arte severa,
Vou labutando, na quietude
Da noite, enquanto, à luz cantante
De encapelada lua jazem
Tantos amantes que entre os braços
As próprias dores vão estreitando —
Não é por pão, nem por ambição,
Nem para em palcos de marfim
Pavonear-me, trocando encantos,
Mas pelo simples salário pago
Pelo secreto coração deles.

*Tradução de Mário Faustino


Canção de Alta Noite

Cecília Meireles
*

Alta noite, lua quieta,
muros frios, praia rasa.

Andar, andar, que um poeta
não necessita de casa.

Acaba-se a última porta.
O resto é o chão do abandono.

Um poeta, na noite morta,
não necessita de sono.

Andar... Perder o seu passo
na noite, também perdida.

Um poeta, à mercê do espaço,
nem necessita de vida.

Andar... - enquanto consente
Deus que seja a noite andada.

Porque o poeta, indiferente,
anda por andar - somente.
Não necessita de nada.

*Cecília Meireles desenhada por Rico Rodriguez, artista cearense e universal.

Cinema Fora da Lei*
Rogério Sganzerla

1 – Meu filme é um far-west sobre o Terceiro Mundo. Isto é, fusão e mixagem de vários gêneros. Fiz um filme-soma; um far-west mas também musical, documentário, policial, comédia (ou chanchada?) e ficção científica. Do documentário, a sinceridade (Rossellini); do policial, a violência (Fuller); da comédia, o ritmo anárquico (Sennett, Keaton); do western, a simplificação brutal dos conflitos (Mann).

2 – O Bandido da Luz Vermelha persegue, ele, a polícia enquanto os tiras fazem reflexões metafísicas, meditando sobre a solidão e a incomunicabilidade. Quando um personagem não pode fazer nada, ele avacalha.

3 – Orson Welles me ensinou a não separar a política do crime.

4 – Jean-Luc Godard me ensinou a filmar tudo pela metade do preço.

5 – Em Glauber Rocha conheci o cinema de guerrilha feito à base de planos gerais.

6 – Fuller foi quem me mostrou como desmontar o cinema tradicional através da montagem.

7 – Cineasta do excesso e do crime, José Mojica Marins me apontou a poesia furiosa dos atores do Brás, das cortinas e ruínas cafajestes e dos seus diálogos aparentemente banais. Mojica e o cinema japonês me ensinaram a saber ser livre e - ao mesmo tempo – acadêmico.

8 – O solitário Murnau me ensinou a amar o plano fixo acima de todos os travellings.

9 – É preciso descobrir o segredo do cinema de Luís poeta e agitador Buñuel, anjo exterminador.

10 – Nunca se esquecendo de Hitchcock, Eisenstein e Nicholas Ray.

11 – Porque o que eu queria mesmo era fazer um filme mágico e cafajeste, cujos personagens fossem sublimes e boçais, onde a estupidez – acima de tudo – revelasse as leis secretas da alma e do corpo subdesenvolvido. Quis fazer um painel sobre a sociedade delirante, ameaçada por um criminoso solitário. Quis dar esse salto porque entendi que tinha que filmar o possível e o impossível num país subdesenvolvido. Meus personagens são, todos eles, inutilmente boçais – aliás como 80% do cinema brasileiro; desde a estupidez trágica do Corisco à bobagem de Boca de Ouro, passando por Zé do Caixão e pelos párias de Barravento.

12 – Estou filmando a vida do Bandido da Luz Vermelha como poderia estar contando os milagres de São João Batista, a juventude de Marx ou as aventuras de Chateaubriand. É um bom pretexto para refletir sobre o Brasil da década de 60. Nesse painel, a política e o crime identificam personagens do alto e do baixo mundo.

13 – Tive de fazer cinema fora da lei aqui em São Paulo porque quis dar um esforço total em
direção ao filme brasileiro libertador, revolucionário também nas panorâmicas, na câmara fixa
e nos cortes secos. O ponto de partida de nossos filmes deve ser a instabilidade do cinema – como também da nossa sociedade, da nossa estética, dos nossos amores e do nosso sono. Por isso, a câmara é indecisa; o som fugidio; os personagens medrosos. Nesse País tudo é possível e por isso o filme pode explodir a qualquer momento.

*Manifesto escrito em 1968, durante as filmagens de O Bandido da Luz Vermelha ( pode ser encontrado no livro "O Bandido da Luz Vermelha - Argumento e Roteiro de Rogério Sganzerla", Coleção Aplauso, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008).

Epigrama
La Fontaine


Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo.
A volúpia e os prazeres são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos.
Reflete nisso, oh minha amada:
Amar sem foder é bem pouco,
Foder sem amar não é nada.

Epigramas
Antônio Sales

— Passa na estrada um camelo
e um corcunda palpitante
de alegria, disse ao vê-lo:
— "Mas que animal elegante!"

— "Não gosto de ouvir tolices!" —
exclamas, estomagado;
para que não as ouvisses,
devias ficar calado.

Miguel Borges
Cineasta

"Qualquer cinema é novo se tiver uma consciência clara de que os problemas humanos neste momento são resultado de a sociedade estar baseada na exploração do homem pelo homem. E no choque de dois tipos de sociedade: a que procura eliminar esta exploração e a que está baseada sôbre ela. Não quer dizer isto que o cinema novo deva ser sectário, porque a solução para êste problema talvez não seja matéria de cinema, mas é indispensável que reflita esta consciência."

Flamengo Sessentão*
Nelson Rodrigues

Corria o ano de 1911. Vejam vocês: — 1911! O bigode do kaiser estava, então, em plena vigência; Mata-Hari, com um seio só, ateava paixões e suicídios; e as mulheres, aqui e alhures, usavam umas ancas imensas e intransportáveis. Aliás, diga-se de passagem: — é impossível não ter uma funda nostalgia dos quadris anteriores à Primeira Grande Guerra. Uma menina de catorze anos para atravessar uma porta tinha que se pôr de perfil. Convenhamos: — grande época! grande época!

Pois bem. Foi em 1911, tempo dos cabelos compridos e dos espartilhos, das valsas em primeira audição e do busto unilateral de Mata-Hari, que nasceu o Flamengo.** Em tempo retifico: — nasceu a seção terrestre do Flamengo. De fato, o clube de regatas já existia, já começava a tecer a sua camoniana tradição náutica. Em 1911, aconteceu uma briga no Fluminense. Discute daqui, dali, e é possível que tenha havido tapa, nome feio, o diabo. Conclusão: — cindiu-se o Fluminense e a dissidência, ainda esbravejante, ainda ululante, foi fundar, no Flamengo de regatas, o Flamengo de futebol.

Naquele tempo tudo era diferente. Por exemplo: — a torcida tinha uma ênfase, uma grandiloqüência de ópera. E acontecia esta coisa sublime: — quando havia um gol, as mulheres rolavam em ataques. Eis o que empobrece liricamente o futebol atual: — a inexistência do histerismo feminino. Difícil, muito difícil, achar-se uma torcedora histérica. Por sua vez, os homens torciam como espanhóis de anedota. E os jogadores? Ah, os jogadores! A bola tinha uma importância relativa ou nula. Quantas vezes o craque esquecia a pelota e saía em frente, ceifando, dizimando, assassinando canelas, rins, tórax e baços adversários? Hoje, o homem está muito desvirilizado e já não aceita a ferocidade dos velhos tempos. Mas raciocinemos: — em 1911, ninguém bebia um copo d’água sem paixão.

Passou-se. E o Flamengo joga, hoje, com a mesma alma de 1911. Admite, é claro, as convenções disciplinares que o futebol moderno exige. Mas o comportamento interior, a gana, a garra, o élan são perfeitamente inatuais. Essa fixação no tempo explica a tremenda força rubro-negra. Note-se: — não se trata de um fenômeno apenas do jogador. Mas do torcedor também. Aliás, time e torcida completam-se numa integração definitiva. O adepto de qualquer outro clube recebe um gol, uma derrota, com uma tristeza maior ou menor, que não afeta as raízes do ser. O torcedor rubro-negro, não. Se entra um gol adversário, ele se crispa, ele arqueja, ele vidra os olhos, ele agoniza, ele sangra como um césar apunhalado.

Também é de 1911, da mentalidade anterior à Primeira Grande Guerra, o amor às cores do clube. Para qualquer um, a camisa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo, a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte: — quando o time não dá nada, a camisa é içada, desfraldada, por invisíveis mãos. Adversários, juizes, bandeirinhas tremem então, intimidados, acovardados, batidos. Há de chegar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no arco. E, diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável.

*Texto retirado do livro "À Sombra das Chuteiras Imortais - Crônicas de Futebol (Manchete Esportiva, 26/11/1955)", da Companhia das Letras (seleção e notas de Ruy Castro).

** O Flamengo foi fundado em 15/11/1895.

*** Assim como Nelson Rodrigues, não sou flamenguista, mas não há como negar a beleza do texto, mesmo tratando-se do time em questão.

O curta metragem Céu Limpo - dirigido por mim e Marcley de Aquino - é um dos filmes selecionados para a Mostra Competitiva Nacional do 3º Iguacine – Festival de Cinema de Nova Iguaçu/RJ, a se realizar entre os dias 15 e 21 de abril de 2010.

Saiba mais sobre Céu Limpo no blog da produtora Areal Filmes

Tarkovski: Cinema, Literatura e Música

"O cinema é a única forma de arte em que o autor pode se considerar como o criador de uma realidade não convencional, literalmente, o criador do seu próprio mundo. No cinema, a tendência inata do homem para a auto-afirmação encontra um dos seus meios de realização mais completos e diretos. Um filme é uma realidade emocional, e é assim que a platéia o recebe - como uma segunda realidade.

Por esse motivo a concepção amplamente difundida do cinema como um sistema de signos parece-me profunda e essencialmente errada. Percebo uma premissa falsa na própria base da abordagem estruturalista.

Estamos falando sobre os diferentes tipos de relação com a realidade sobre os quais cada forma de arte fundamenta e desenvolve seu sistema específico de convenções. Neste aspecto, coloco o cinema e a música entre as artes imediatas, já que não precisam de linguagem mediadora. Este fator determinante fundamental sublinha o parantesco entre música e cinema e, pelo mesmo motivo, afasta o cinema da literatura, onde tudo é expresso através da linguagem, de um sistema de signos, de hieroglifos. A obra literária só pode ser recebida através de símbolos, de conceitos - pois é isso que as palavras são; mas o cinema, como a música, permite uma percepção inteiramente imediata, emocional e sensível da obra."

Trecho do livro "Esculpir o Tempo", de Andrei Tarkovski - Editora Martins Fontes


O Cinema Segundo Truffaut

"Pode-se dizer, de maneira resumida, que o cinema conheceu três estágios: o mudo, quando o filme era uma realização física, época de Griffith e John Ford. Fazer um filme era então se dispor a fazer tudo, a enfrentar os maiores imprevistos. O diretor carregava sobre si o peso de um filme e de um material considerável. Devia orquestrar milhares de figurantes. O melhor exemplo de diretor do cinema realizado na época era Griffith. E o grande esbanjador era Cecil B. De Mille.

Ao passar a ser falado, o cinema se intelectualizou. Tornou-se um subproduto do romance e, sobretudo, do teatro. Transformou-se num produto semi-intelectual. Essa época pode ser ilustrada no pior sentido pela dupla Feyder-Spaak e, no melhor sentido, por Prévert e Carné.

Atualmente, vive-se o terceiro estágio: o dos intelectuais, quando não está mais em jogo o desempenho físico, em que todos os problemas técnicos são resolvidos por uma equipe numerosa e altamente competente. As cenas são tão bem realizadas quanto as do décimo quinto filme de qualquer grande diretor. Em outras épocas isto teria sido absolutamente impossível. No presente, o cinema está nas mãos de intelectuais, isto é, com pessoas que em outras circunstâncias poderiam ter escrito romances ou peças de teatro, que dez anos atrás certamente teriam preferido escrever romances ou peças por medo da técnica. Nós vivemos o momento do cinema do autor. Claro, o cinema intelectual corre o risco de, em pouco tempo, tornar-se vazio e abstrato. Mas tem também boas chances de tornar-se mais inteligente, forte e sincero do que nos períodos precedentes.

O desafio para os novos cineastas é recuperar a saúde do cinema mudo, saúde formidável e única coisa que pode evitar que nosso cinema se torne irritante, complicado, chato e sem vida. É preciso reaver o primeiro período do cinema e se rejeitar em bloco todo o segundo período, que atualmente se apresenta como um estágio de transição.”

Trecho da entrevista concedida por François Truffaut a Chris Petit e Verina Glaessner (Time Out, nº 197, de 30 de novembro a 6 de dezembro de 1973) contida no livro "O Cinema Segundo François Truffaut", de Anne Gillain - Editora Nova Fronteira.

Se dá dinheiro, o cinema é indústria. Se perde, é arte.
Millôr Fernandes

Pré-Carnaval


O Príncipe dos Tolos
Texto de Pierre Gringore (Séc. XV – XVI)

Tolos lunáticos, tolos aparvalhados, tolos sábios; tolos da cidade, tolos dos castelos e das aldeias; tolos simplórios, tolos sutis; tolos amorosos, tolos solitários, tolos selvagens; tolos velhos, tolos novos e tolos de todas as idades; tolos bárbaros, tolos forasteiros, tolos gentis; tolos razoáveis, tolos perversos e tolos determinados(…) Tolas senhoras e tolas senhorinhas; tolas velhas e tolas jovens, donzelas; todas as tolas amam o macho; tolas ousadas, covardes, feias, lindas; tolas gabolas, tolas meigas, rebeldes; tolas que querem ter sua prebenda; tolas que trotam nas trilhas; tolas coradas, magras e pálidas; na Terça-feira Gorda o Príncipe irá recebê-los nos Halles.

Pós-Carnaval


Depois do Carnaval
Texto de Cecília Meireles (1901 - 1964)

Terminado o Carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em suas cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade.

À chamada realidade. Pois, por detrás disto que aparentamos ser, leva cada um de nós a preocupação de um desejo oculto, de uma vocação ou de um capricho que apenas o Carnaval permite que se manifestem com toda a sua força, por um ano inteiro contida.

Somos um povo muito variado e mesmo contraditório: o que para alguns parecerá defeito é, para outros, encanto. Quem diria que tantas pessoas bem comportadas, e aparentemente elegantes e finas, alimentam, durante trezentos dias do ano, o modesto sonho de serem ursos, macacos, onças, gatos e outros bichos? Quem diria que há tantas vocações para índios e escravas gregas, neste país de letrados e de liberdade?

Por outro lado, neste chamado país subdesenvolvido, quem poderia imaginar que há tantos reis e imperadores, princesas das Mil e Uma Noites, soberanos fantásticos, banhados em esplendores que, se não são propriamente das minas de Golconda, resultam, afinal, mais caros: pois se as gemas verdadeiras têm valor por toda a vida, estas, de preço não desprezível, se destinam a durar somente algumas horas.

Neste país tão avançado e liberal — segundo dizem — há milhares de corações imperiais, milhares de sonhos profundamente comprimidos mas que explodem, no Carnaval, com suas anquinhas e casacas, cartolas e coroas, mantos roçagantes (espanejemos o adjetivo), cetros, luvas e outros acessórios.

Aliás, em matéria de reinados, vamos do Rei do Chumbo ao da Voz, passando pelo dos Cabritos e dos Parafusos: como se pode ver no catálogo telefônico. Temos impérios vários, príncipes, imperatrizes, princesas, em etiquetas de roupa e em rótulos de bebidas. É o nosso sonho de grandeza, a nossa compensação, a valorização que damos aos nossos próprios méritos...
Mas, agora que o Carnaval passou, que vamos fazer de tantos quilos de miçangas, de tantos olhos faraônicos, de tantas coroas superpostas, de tantas plumas, leques, sombrinhas...?

"Ved de quán poco valor
Son las cosas tras que andamos
Y corremos..."

dizia Jorge Manrique. E no século XV! E falando de coisas de verdade! Mas os homens gostam da ilusão. E já vão preparar o próximo Carnaval...














A Promessa*
De Duarte Dias

Por que demorara tanto para percebê-lo? Seria por causa dos homens que se insinuavam toda vez que ela entregava salgados ou sopas dormidas no balcão da lanchonete? Era aquele ambiente sem respeito que fazia com que ela ignorasse a todos, inclusive o homem que agora lhe parecia tão especial? Como pôde ser tão cega?

Ele nunca se incomodou com a indiferença dela. Muito pelo contrário. Toda quinta-feira, quinze para as nove da manhã, chovesse ou fizesse sol, ele chegava e ocupava a primeira mesa à direita de quem entrava. E lá ficava, até a hora do almoço. Só então ia para casa, dormir um pouco. Gostava de dormir.

Estava velho, era verdade - a memória vinha falhando continuamente - mas desde que ela chegara, a seis meses contados nos dedos, sua vida ganhara novo alento. Não sabia seu nome, nem de onde vinha, mas isso, de fato, não tinha a menor importância. Por enquanto, vê-la já lhe bastava.

Ela sabia que, não fosse o incidente no início do mês, não teria reparado nele. Na ocasião, ele tossia muito. Um freguês, vizinho de mesa, queixou-se ao garçom. “Esse tuberculoso vai acabar cuspindo no meu prato”, berrara o homem. Exigiu que o retirassem dali. O garçom foi ter com ele, que contra-argumentou solicitando mais uma cerveja. Foi atendido. Após alguns goles, a tosse parou, para voltar em seguida mais forte do que antes. Vendo que nenhuma providência seria tomada, o freguês queixoso ficou furioso. Visivelmente transtornado e gritando palavrões contra o garçom, retirou-se prometendo nunca mais por os pés naquela espelunca.

Naquele dia, apesar da tosse e da confusão, ela achou-o bonito. Não era jovem como ela, mas ainda parecia guardar um certo vigor. Via isso na forma como ele caminhava. Andar firme, equilibrado, de quem sabe o que quer. Mesmo quando ia ao banheiro, que vivia sujo. Já o ouvira queixar-se sobre isso com o proprietário. Mais de uma vez. Era quando ouvia a voz dele. Uma voz forte e imperiosa. O proprietário sempre se desculpava. E baixava a cabeça. Ela se sentia, de alguma maneira, vingada e protegida.

Sem saber, ela o fez mudar os hábitos. Passou a tomar banho nas manhãs das quintas-feiras, antes de ir para a lanchonete. Não que ele não gostasse de banho, mas há muito tempo só se asseava à noite. Adquirira o hábito depois que começou a trabalhar na pedreira. Foram vinte e sete anos de marretadas. Então, veio a crise econômica. Demitido, voltou para Fortaleza. Ninguém o reconheceu. Talvez por causa da barba branca. Ou das rugas. Ou porque não procurou ninguém. O fato é que sentia-se livre do débito que julgava ter com a justiça.

Já fazia muito tempo. Ele nunca soube o que aconteceu com a noiva. Talvez tivesse casado com outro. Ou fugido. Ou morrido, como o amante. De certa forma, ele também morrera. Perdera vinte e oito anos, cinco meses e treze dias de sua vida por conta daquela facada. Mas aquelas eram lembranças amargas. Não as queria mais.

Ela recebera o bilhete dele pouco antes da hora do almoço. O garçom lhe entregara. Ele pedia um encontro na Praça, quinta-feira, às seis da noite. De lá, iriam a uma sessão no velho cinema. Ela não sabia qual era o filme. Lembrou que em sua cidade natal não havia cinema, só casa de forró. Ela não sabia dançar. Nunca aprendeu.

O trabalho de vigia não era agradável. Principalmente por não poder dormir. Mais um motivo para achar a quinta-feira especial: era seu dia - ou noite - de folga. Aquela quinta, no entanto, seria ainda mais especial do que as outras. Planejara tudo. Não a veria naquela manhã. Iria encontrá-la somente à noite, depois do expediente. Esperaria na Praça, em frente a lanchonete. Ela ficaria feliz ao vê-lo. E haveria de sentir-se bem com ele. Com certeza.

Apesar do chá de cidreira que tomara, ela continuava tensa. Agora, era tudo com Deus. Que ele fizesse do seu destino o que achasse por bem fazer. Isto é, desde que não a fizesse casar. Isso ela não queria e não aceitava. Se bem que ele era um homem bonito. Mais velho, mas bonito. Talvez até desse certo. Ia pensar no assunto. Mas deixar de trabalhar para viver às custas de homem, isso nunca. Manteria seu emprego na lanchonete. Podia não ser um emprego maravilhoso, mas era estável. Freguesia, pelo menos, não faltava. O povo do centro da cidade gostava de comer porcaria.

Ele sentou-se no banco. Olhou ao redor. A praça estava cheia de velhos iguais a ele. Ficou incomodado. Um menino pediu para engraxar-lhe os sapatos. Rabugento, deixou escapar um não. O menino foi-se. Ele olhou a Coluna da Hora, no centro da praça. Cinco para as seis da noite. Passou as mãos no cabelo ralo. Estava ansioso. Sentia-se jovem.

Ela surgiu por detrás da banca de revista. O vestido amarelo a deixava mais bonita. Ele levantou-se. Não sabia o que fazer. Ela caminhou até o peitoril que cercava a Coluna da Hora e parou. Ele aproximou-se lentamente pelo lado oposto e também parou. Ela não o viu. Ele viu quando um homem aproximou-se dela e tocou-lhe o ombro. Ela virou-se e retribuiu o toque com um grande sorriso. “Ele veio!”, ela pensou. Ele viu quando ela abraçou o homem com ternura e, de mãos dadas, saíram em direção ao cinema.

Ele continuou parado junto ao peitoril. Reconhecera o homem. Como ele, também era um freqüentador da lanchonete. E costumava tossir muito. Um dia, ao ter um ataque violento de tosse, aquele homem quase cuspira em seu prato. Ele reclamara o fato junto ao garçom. Esse, ao invés de tomar providências, servira uma cerveja ao "tuberculoso". Ele ficara revoltado com aquela desfeita do garçom. Saíra jurando nunca mais por os pés naquela espelunca. Devia ter cumprido a promessa.

*Conto do livro "Ele, o Outro" de Duarte Dias - Todos os direitos reservados